O que chamo de conflito nesse texto vai desde uma mera discordância de opinião ao abuso, destacando, claro, que há uma gradação de gravidade, danos e consequências. Conflitos são inevitáveis. Já forma como escolhemos lidar com eles faz diferença.
A Palavra de Deus ensina a lidar com cada tipo de conflito.
Há conflitos simples que dá pra lidar imediatamente. Outros são profundos e, às vezes, requer retirar-se pra se acalmar, orar, buscar sabedoria e discernir se o coração quer justiça, ou se está buscando apenas a vaidade de estar certo. Alguns conflitos são tão graves que alguém deve intervir para garantir a proteção da parte mais fraca, ou para deter o pecador altivo.
Independente do tipo, conflito tem de ser lidado. Não podemos deixar o sol se pôr sobre a ira, não podemos simplesmente deixar o assunto pra lá. A justiça deve ser satisfeita, o perdão deve ser liberado, o pecado deve ser confessado e abandonado. Se for algo trivial, cabe nem que seja um “vamos deixar de discussão boba?”
A cultura brasileira vive dois extremos: por um lado um polarismo que confronta tudo e cria conflitos que nem existiam; e por outro uma omissão silenciosa que só quer se poupar e evitar problemas. Nenhum dos dois é bíblico.
O primeiro espiritualiza a contenda chamando-a de honestidade, coragem e intrepidez e, assim, normaliza a impulsividade, a agressividade e a tolice.
Enquanto o segundo espiritualiza a covardia, disfarçando-a de mansidão e prudência – quando na verdade está querendo se poupar e, com isso, favorece a injustiça.
O cristão precisa fugir tanto da contenda como da covardia. O equilíbrio cristão está em viver uma antinomia: intrepidez com mansidão; justiça com graça; disciplina com perdão. Parece paradoxal, mas muitas coisas na fé cristã operam em antinomia (Um Deus Trino; Jesus que é Deus e homem; predestinação e responsabilidade humana etc.)
O confronto é ensinado por Jesus:
— Se o seu irmão pecar contra você, vá e repreenda-o em particular. Se ele ouvir, você ganhou o seu irmão.
(Mateus 18.15)
Já a covardia e a contenda são repudiados por Ele:.
“Seis coisas o Senhor Deus odeia, e uma sétima a sua alma detesta:
olhos cheios de orgulho, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
coração que faz planos perversos, pés que se apressam a fazer o mal,
testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia discórdia entre irmãos.”
(Provérbios 6.16-19)
“Fiquem irados e não pequem. Não deixem que o sol se ponha sobre a ira de vocês; Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.”
(Efésios 4.26; 2 Timóteo 1,7)
O objetivo do confronto é impedir que o mal se propague. Já a contenda quer vingança, ao passo q a covardia quer apenas proteger a própria reputação.
O nosso alvo em resolver conflitos deve ser restaurar a justiça que agrada a Deus, e conceder o perdão, assim como também fomos perdoados (Mt 6.12; Cl 3.13). Veja o que a Diane Langberg fala sobre o confronto:
“As pessoas (…) possuem a noção equivocada de que agir por amor em relação à alguém (…) significa fazer tudo o que essa pessoa quer. O amor não é assim. Se eu me relacionar com você por medo, farei coisas que me protegerão daquilo que temo. Se eu me relacionar com você por amor, não colocarei (…) de lado o que eu quero em troca do que você quer. Você pode querer algumas coisas muito erradas. Não devo fazer a troca entre ser governado por minha natureza egoísta e ser governado por sua natureza egoísta. Pelo contrário, se eu me relacionar com você por amor, então o que eu fizer será governado pelo amor de Deus, e o amor de Deus provavelmente me chamará para fazer algumas coisas muito difíceis! O amor dEle pode me convocar a abrir mão de coisas que prefiro proteger. Pode exigir de mim que eu diga a você verdades que prefiro não dizer. Uma coisa eu sei: o amor de Deus constantemente me convocará a fazer coisas que não vêem a mim naturalmente. Vai desmascarar meu coração. Descobrirei que frequentemente, quando pareço mais amável para o observador, estou, na realidade, simplesmente servindo a meus próprios fins, protegendo minha reputação, somando pontos. Igualmente descobrirei ocasiões em que um observador julgará meus atos como sem amor, mas eu estarei fazendo algo extremamente difícil, algo que foi executado por total obediência a Deus.”
– Diane Langberg
A contenda é um descontrole que nasce da carne. Ela não tem limites e devasta onde passa, por isso Provérbios a compara a uma enchente:
“Começar uma discussão é como abrir brecha num dique; por isso resolva a questão antes que surja a contenda.”
Provérbios 17.14
Hoje encontraremos algum conflito. De fato, em nossa vida temos vários conflitos esperando a nossa ação. O que faremos, irmãos?
Deixe-me propor nos retirarmo-nos para orar, para que diante da ira a gente não peque.
Segundo, procurar um(a) cristão(ã) maduro(a)e sábio(a) para conversar sobre o assunto. Morei nove anos em uma base missionária onde convivi com pessoas de diferentes culturas e países. Lá eu descobri que muitas vezes que eu tinha certeza que estava certa, eu não estava.
Alguém externo ao problema poderá enxergar melhor a questão para gente não exigir coisas que não temos direito, e também para não abrirmos mão de coisas santas.
Se alguém se identificou com esse assunto e percebe que tem tido dificuldade de lidar com conflitos, sugiro o livro “Limites: quando dizer sim e quando dizer não” de Cloud e Townsend.

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