Quando vi que as tailandesas dão o mesmo valor aos cuidados com a pele que as brasileiras, desconfiei que ali poderia haver uma portinha ministerial e usar skincare para servir as mulheres.
“Skincare”, do inglês, é “cuidado com a pele”. É uma rotina de cuidado, hidratação e nutrição da pele. É diferente da limpeza de pele, porque não envolve remoção de comedões e de acne. Os benefícios duradouros do skincare dependem de rotina e constância. A longo prazo, alguns dos benefícios são: prevenção de manchas; redução de rugas e sinais do tempo; estimular a produção de colágeno; hidratação profunda e reparadora da pele. Porém, uma ação única de skincare, sem rotina, possui poucos benefícios. Obtém-se uma melhor aparência imediata da pele, mas com dois ou três lavadas do rosto isso se perde.
A pergunta que ninguém fez
Manter uma rotina de skincare para mulheres que trabalham na roça, de sol a sol, sem recursos sequer para o protetor solar, é um luxo impensável. Suas preocupações são com a sobrevivência básica. Por que então perder tempo com skincare, já que o benefício de uma única sessão não é sequer duradouro? Ninguém me fez essa pergunta. Contudo eu me indaguei isso constantemente nos últimos meses, desde que a ideia me ocorreu pela primeira vez no final de 2022.
Mas sendo adepta do skincare, eu sei que parar para cuidar de mim no meio de uma rotina caótica faz bem ao meu emocional. Me faz lembrar do meu autovalor. Além disso, me faz bem espiritualmente, porque me mostra o cuidado de Deus comigo nos mínimos detalhes. Talvez as tailandesas também pudessem gostar dessa sensação que vai muito além da pele. E talvez eu pudesse aproveitar o tempo para apresentar pra elas o Deus que cuida de nós.
Autovalor
Com o passar dos meses aqui na cultura, vi que as mulheres têm muitas inseguranças estéticas, muito mais do que aí no Ocidente. E as mulheres em Isaan sofrem preconceito por terem a pele mais escura. Em toda a cultura asiática há muitos cosméticos, remédios e tratamentos para clarear a pele. Seja com maquiagem seja tipo Michael Jackson.
Elas não gostam do formato dos olhos, nem do próprio nariz, ou dos próprios cabelos. Parte meu coração ver mulheres LINDAS com tão pouco autovalor.
Vi que a área da estética pode ser uma ponte também para eu compartilhar sobre o Deus Criador que nos fez sua imagem e semelhança; sobre a mulher que foi criada no jardim no jardim do Éden; e principalmente que, em Cristo, fomos feitos templo do Espírito Santo, e temos a responsabilidade teológica de cuidar desse templo.
Diante de tudo isso, skincare não parecia mais uma ideia tão superficial. Mas será que a cultura receberia bem a ideia?
Na dúvida, pergunte ao nacional
Falei sobre essa ideia com uma das equipes da Pioneiros que servem na região de Isaan (nordeste tailandês, e local onde quero atuar). Em dezembro de 2022 viajei para Kalasin pela primeira vez, e lá a equipe me colocou em contato com uma igreja nativa. Eu queria conversar sobre o projeto de skincare e saber dos nativos, que são os maiores especialistas sobre a própria cultura, se eles achavam que haveria aceitação cultural, se poderíamos usar skincare para servir as mulheres da região, e se haveria como usar isso como uma ponte para criar relacionamentos e compartilhar Cristo.

Portas abertas e lágrimas
A reunião foi melhor do que eu esperava. PiiOum, a esposa do pastor, ficou emocionada e começou a chorar. “Estamos há 7 anos orando a Deus por uma estratégia para alcançar as mulheres aqui na região. Eu creio no meu coração que essa é a direção que Deus está dando.”
Eles ficaram empolgados. Ofereceram o espaço da igreja para sediar o evento, e se disponibilizaram a mobilizar e convidar mulheres para participarem. Eu perguntei se poderiam estar presentes e conversarem com as mulheres enquanto eu faria o skincare, e principalmente se estariam dispostos a dar continuidade no cuidado delas, já que eu ainda não tenho idioma o suficiente. Eles concordaram.
A igreja também me perguntou se eu sabia cozinhar e estaria disposta a fazer um jantar brasileiro para as participantes como encerramento do evento. Eu topei, pois cozinhar é minha outra paixão. Ficou tudo acertado, o evento seria em abril/23, quando eu teria férias da universidade e poderia viajar.
Recursos
Skincare não é uma coisa barata. Os produtos que funcionam de verdade são caros (tem muito produto falso e golpes no mercado da beleza). Passei muitas semanas orando a Deus por recursos e por clareza do que comprar para o evento. Fiz uma lista bem sucinta e básica.
Quando chegou perto do Dia Internacional das Mulheres, me veio a ideia de convidar as irmãs no Brasil para custearem essa ação: as irmãs brasileiras servindo as tailandesas como um presente pelo Dia da Mulher. As brasileiras foram tão liberais nas ofertas que eu tive que pedir para pararem de ofertar, porque excedemos (e muito) o valor necessário, e isso em menos de 24h! Glória a Deus! Entendi que Deus queria algo mais caprichado do que o que eu tinha planejado.
Comprei os produtos; o mobiliário; separei dinheiro para o jantar e para alguma emergência; comprei minhas passagens e paguei pela minha estadia com o que foi ofertado.
O tempo de Deus não é o nosso
No dia que cheguei na cidade, na véspera do evento, adoeci e tive que suspender o evento. A igreja foi graciosa e compreensiva. Combinamos de reagendar quando possível. Fiquei várias semanas doente, e nas férias seguintes da Universidade eu não pude viajar. Ficou remarcado para janeiro/24.
Achei que depois de tanto tempo a igreja já tinha perdido o interesse, e que as mulheres lá já tinham desanimado. Mas eu tinha recebido as ofertas de várias irmãs do Brasil, já tinha comprado os materiais, eu empenhei minha palavra… eu tinha a responsabilidade moral e ética de realizar esse evento, mesmo se fosse o único e eu tivesse que abandonar essa ideia de skincare de vez. Era uma questão de compromisso e comprometimento. “Sim sim, não não.”
E no tempo de Deus as coisas aconteceram melhor do que eu poderia imaginar. Leia como foi o 1º evento de skincare na igreja em Kalasin.

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