“Em meu nome falarão novas línguas”

Em Marcos 16, após a ordem missionária (v. 15), o Senhor afirma quais os sinais acompanharão os que creem nele (v. 17, 18). Um deles é que, em nome do Senhor, quem crer falará novas línguas

Não tenho dúvidas que aprenderei tailandês como resultado da bênção divina. Mas às vezes temos a expectativa de que essa benção virá rápido e sem muito esforço de nossa parte – seja por uma obra sobrenatural, seja através de uma inteligência notável. 

Com certeza seria mais fácil “instalar o tailandês” ao meu “pacote de idiomas”, como na expansão de um software. Todavia, nem sempre os dons de Deus são descritos assim na Bíblia. 

Em 1 Timóteo 4.13–16 vemos Paulo encorajando Timóteo a “desenvolver o dom que há nele” por meio do “esforço, da diligência, da dedicação e do zelo”.

Se Deus deseja que seu Evangelho seja anunciado, por que Ele não facilita a nossa vida e “dá” as línguas necessárias para a gente de uma forma mais fácil? Por que o missionário precisa gastar tantas horas diárias, por tantos anos, para aprender um idioma? Se Deus automaticamente nos desse a língua alvo não seria mais eficiente?

A verdade é que, certamente, não. 

Já reparou que Deus nunca tem a mesma pressa que a gente? A gente se descabela querendo algo para agora, e Deus na sua soberania nem tchum! Isso porque enquanto estudamos um idioma, Deus molda o nosso caráter. E serve para qualquer coisa que estejamos tentando aprender ou realizar.

Por exemplo, eu quero uma boa pronúncia, mas Deus quer me ensinar humildade. Então eu sou diariamente esmagada pela pronúncia do tailandês. Não sobra espaço para vaidade, porque o mais singelo acerto vem após longas horas e dias de treino e prática. E no instante que eu acho que finalmente aprendi, no momento da tão sonhada “autoconfiança” eu erro de novo. Meu ego vai sendo lapidado e, no final, não sobra nenhum pedacinho de vaidade, afinal o processo inteiro deixou claro que foi a misericórdia do Senhor, e não minha competência.

Isso é uma benção! Se Deus tivesse me dado facilidade para idiomas, se com pouco esforço eu obtivesse grandes resultados, e em pouco tempo eu desenvolvesse rápido, eu seria muito metida! Minha vaidade seria maior do que o meu conhecimento. E ainda que eu bancasse a humilde no discurso, dando glória a Deus da boca para fora, dentro do meu coração a vaidade sentaria no trono de Deus. Portanto, a dificuldade para adquirir um novo idioma é a maior benção que Deus poderia me dar, porque me protege do meu próprio pecado. Dessa forma, Cristo continua sentado no trono do meu coração – a quem eu recorro cada vez que uma palavra difícil aparece, “Deus me ajuda a aprender essa língua!”, eu clamo.

Mas precisamos nos esforçar com toda diligência. Não estamos autorizados a esperar que Deus nos dê algo que não suamos. Deus não precisa do nosso esforço, mas Ele usa o nosso esforço para produzir caráter. É o que aprendo com o livro de Números: Deus deu a vitória ao seu povo repetidas vezes, mas eles tiveram de comparecer para lutar. Batalha após batalha eles se armaduraram e lutaram. Se o Senhor não lhes tivesse dado as vitórias eles não teriam vencido. Porém, se eles não tivessem comparecido para cada batalha, Deus não lhes teria feito vitoriosos. Como disse um sábio, “Deus não recompensa preguiçosos e nem covardes.”

Segundo exemplo de que o “Plano de Aulas” do Senhor é diferente do meu: eu quero logo anunciar as Boas Novas ao povo, mas Deus está mais interessado em me ensinar paciência. Não, meus irmãos, sério! Com as mãos esfrego meus olhos e rosto repetidas vezes. Tenho certeza que vocês já passaram por isso. Aparentemente, Deus prefere que eu me aquiete, observe e aprenda outras coisas no processo.

Incontáveis vezes eu quis falar algo, mas não soube expressar e fiquei engasgada. Como é horrível ter o que dizer e não poder dizer! O curioso é que mais tarde, geralmente eu percebo que eu teria dito de forma errada, ou na hora errada. A frustração de não falar acabou se revelando uma benção do Senhor, que me poupou de dizer besteira. A experiência sempre me ensina algo novo sobre a cultura local e me deixa um pouquinho mais sábia. Entendo então que a terceira coisa que Deus quer que eu aprenda é a sabedoria.

Atualmente meu Thai é para brasileiro ver: parece solto; quem vê de fora pensa que eu tou entendendo tudo; os nativos elogiam meu Thai (eles são fofos); mas minhas professoras, colegas de sala e eu sabemos: meu Thai ainda tá fraco! A expressão mais frequente que vejo no rosto das minhas professoras é cara de dó, acho que elas devem pensar, “como a Anita ainda não conseguiu aprender isso?”. Eu confesso, d.e.t.e.s.t.o me sentir burra. Que bom que Deus está trabalhando na minha vaidade, preciso mesmo de um punhado de tratamento nessa área.

Estou há dois anos estudando a língua. Tenho três professoras diferentes (na universidade, uma particular e uma nativa que me ajuda). Invisto de 4 a 6h de estudo por dia. Pratico com os nativos diariamente. Moro em um prédio de nativos, convivo com adolescentes e jovens que me ajudam o tempo todo com a pronúncia, com o vocabulário e com as estruturas frasais. Fiz curso de fonética e de métodos de aquisição de línguas antes de sair do Brasil para facilitar o processo de aprender idioma. Conheço as técnicas e ferramentas que facilitam a adquirir uma nova língua. Além de tudo, tenho uma mentora com quem sento a cada dois meses para avaliar meu avanço e criar estratégias para superar os obstáculos e estagnação linguística. Com tudo isso, eu ainda aprendo devagar. Autoestima? Esquece… foi pro espaço há muito tempo. Eu mesma páro e penso, “de onde vem essa perseverança toda? Por que diante de toda dificuldade e frustração eu não desisto?”. E vem do Senhor, meus amigos. Eu repito o processo de humilhação, impaciência e tolice diariamente, pois a quarta coisa no conteúdo programático que o Senhor deseja me ensinar é longanimidade – “aquilo que começa quando acaba a paciência”, segundo o Lidório.

Acreditem, eu não tenho esse comprometimento todo. Deus de fato nos sustenta quando dá vontade de desistir. E estou convicta de que as orações de vocês seguram os meus braços para que conquistemos a peleja.

Esqueça o romantismo do missionário como um fervoroso herói no front, inabalável, virtuoso, cheio de bravura, que coleciona vitórias e volta para casa para receber as medalhas. Esqueça isso. Isso é romantismo e essa ilusão não faz bem para a fé de ninguém. A realidade é que o campo missionário está cheio de crentes lutando diariamente, pensando em parar de vez em quando, e seguindo em frente unicamente por causa do Senhor. Assim como cada irmão de cada igreja, também ficamos doentes, também nos preocupamos com a salvação dos nossos parentes e amigos, também nos assustamos com as contas para pagar, também temos crises de fé, e também vamos deitar esperando em Deus e acordamos porque Ele nos fortaleceu. Muitas noites vamos dormir com choro silencioso, e todo manhã acordamos com um sorriso esperançoso… exatamente como você.

Humildade, paciência, sabedoria e longanimidade. Essas são as matérias que Deus quer que eu aprenda. Meu caráter deve ser mais fluente nessas virtudes do que meu discurso na língua Thai. Deus é eficiente segundo Seus próprios critérios, não segundo as expectativas mercadológicas humanas.

Para sua reflexão:

  1. Qual é o “Thai” que você tem tentado aprender? O que você gostaria de saber/ter/fazer/ser, mas tem tido dificuldade?
  2. O que o Senhor tem te ensinado/feito no lugar?
  3. Quais virtudes Deus está esculpindo em você por meio das dificuldades da vida?

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