A árvore de Natal não faz parte do cenário original de Belém. Se estivesse lá, seria um elemento totalmente estrangeiro ao deserto da Judeia. Sua história começa, na verdade, nas florestas frias da Europa.
Povos antigos do norte já valorizavam árvores que permaneciam verdes no inverno. Enquanto a vegetação ao redor morria com o gelo, o pinheiro mantinha a cor. Era um símbolo natural de resistência, usado muito antes de qualquer interpretação cristã.
A transição para o ambiente religioso aconteceu na Idade Média. Durante as peças teatrais cristãs que encenavam a história de Adão e Eva, o pinheiro era usado para representar a “Árvore do Paraíso”. Como o teatro acontecia em dezembro, decoravam os galhos com maçãs para simbolizar o fruto proibido. Era uma forma visual de ligar o pecado original ao nascimento de Jesus.
Entre os séculos XVI e XVII, a tradição saiu das igrejas e entrou nas casas alemãs. A história popular diz que Martinho Lutero começou a usar velas nos galhos para ilustrar a luz das estrelas, consolidando o costume entre os protestantes. Mas o salto definitivo para o mundo ocorreu em 1848: a Rainha Vitória e o Príncipe Albert foram ilustrados em um jornal inglês ao redor de uma árvore decorada. O prestígio da monarquia britânica transformou um hábito regional em uma tendência global.
Hoje, a árvore é um híbrido. Ela não nasceu cristã, mas foi incorporada e ressignificada pela Igreja para ensinar uma doutrina.
Ela não é um mandamento bíblico, nem um rito obrigatório. É um símbolo cultural que sobreviveu ao tempo. No fim das contas, a árvore apenas aponta para uma ideia central do Natal: a vida que persiste mesmo nos períodos mais difíceis.
O redirecionamento do Comum: Como Deus ressignifica a cultura
A ideia central que atravessa as Escrituras não é a de um Deus que cria do zero o tempo todo, mas de um Deus que frequentemente toma o que já existe e redireciona seu propósito para Si. Ele não ignora o repertório humano; Ele o redime.
Podemos observar esse padrão em diversos momentos da narrativa bíblica:
Dos Símbolos aos Sacrifícios
Na jornada pelo deserto, a serpente de bronze (Nm 21) ilustra bem isso. A imagem da serpente, normalmente associada ao perigo no Antigo Oriente, é transformada por Deus em instrumento de cura — um símbolo que o próprio Jesus, mais tarde, aplicaria à sua crucificação. O mesmo ocorre com o sistema de sacrifícios. Deus não inventou o conceito de oferendas de sangue, pois quase todos os povos antigos o praticavam. Em vez de descartar a prática, Ele a purificou teologicamente, estabelecendo uma nova ética e um propósito que culminaria no sacrifício definitivo de Cristo.
O Calendário e a Linguagem Política
Até mesmo o ritmo da vida foi reaproveitado. As festas agrícolas (Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos) deixaram de ser apenas celebrações de colheita para se tornarem marcos de redenção e memória da aliança. Da mesma forma, títulos como “Rei”, “Senhor” e “Pastor”, que eram essencialmente políticos e culturais na época, foram reivindicados por Deus. Ele não evitou esses termos por serem “seculares”; Ele os redefiniu sob a ótica da santidade.
A Inversão do Poder e da Matéria
Essa ressignificação chega ao seu ápice na inversão de símbolos de poder. Em Apocalipse, a coroa, símbolo máximo do domínio humano, é lançada aos pés do Cordeiro, mostrando que o eixo do poder foi transformado. Até a diversidade das línguas, que em Babel surgiu como juízo, é redirecionada em Pentecostes para servir à missão global.
Até os objetos mais banais, como o óleo, o tecido e o incenso, deixam de ser meros materiais para se tornarem “santos” no Tabernáculo. Deus não cria novos elementos químicos para o Seu culto; Ele imprime um novo propósito na matéria que já criou.
Conclusão
A Bíblia revela um Deus que entra na cultura e fala a linguagem humana sem medo de “contaminação”. Ele nos ensina que o problema raramente reside no objeto ou no símbolo em si, mas na direção do coração que o utiliza. Como Paulo resumiu aos coríntios: “Tudo é de vocês… e vocês são de Cristo”.
Conheça um estilo de decoração de Natal Cristocêntrica nesse post.
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Fontes e leituras
Livros
- The Oxford Companion to Christmas — William D. Crump
- Christmas: A Biography — Judith Flanders
- Stations of the Sun — Ronald Hutton
- The Battle for Christmas — Stephen Nissenbaum
Artigos e referências
- Encyclopaedia Britannica – “Christmas Tree”
https://www.britannica.com/topic/Christmas-tree - History.com – “History of Christmas Trees”
https://www.history.com/topics/christmas/history-of-christmas-trees - Smithsonian Magazine – “Why Do We Put Up Christmas Trees?”
https://www.smithsonianmag.com
Texto feito com o auxílio de IA para revisão e partes da pesquisa.
